3 de out de 2018

Bem-vindo ao Hospício, por Francisco Escorsim


Bem-vindo ao Hospício

Quando decidi escrever neste espaço sobre a chamada “nova direita”, tinha apenas um objetivo: ler e resenhar os livros publicados por autores que a integram, gostem ou não dessa inclusão que é apenas constatação de um fato. Não demorou para perceber que não daria para falar dessas obras sem contextualizá-las melhor nas circunstâncias em que nasceram, o que me levou a rascunhar as origens da “nova direita”, destacando fatos e pessoas de importância fundamental para o que veio depois. Agora que cheguei à fase em que os livros começaram a ser publicados, compreendi por que, lá no início, achava que deveria começar as resenhas pelos livros do Alexandre Costa. Não, não é o fundador da Cacau Show. Quem é, então?

Entendo se você se fez essa pergunta. Alexandre Costa não faz questão de participar das turmas da “nova direita”, algo essencial se quisesse se tornar mais (re)conhecido dentro dela. Porque essa “nova direita” mal entrou na adolescência, época em que a falta de personalidade é mascarada por uma identidade grupal visceral. Por isso qualquer um que dela faça parte será inevitavelmente enquadrado como sendo desse ou daquele grupo, ainda que não faça parte de nenhum. O que mais temos na “nova direita”, aliás, são pessoas que se identificam muito mais por negativas e exclusões do que outra coisa. A começar por aqueles que são de direita por e para não serem de esquerda, seja lá o que a direita for. Daí o fenômeno bem comum de termos conservadores ou liberais que assim se identificam com uma dessas posições mais para não serem confundidos com a outra. Dê uma mirada em muitos perfis de neodireitistas nas redes sociais e verá a quantidade de orgulhosos conservadores e liberais que se orgulham mais do que não são do que por aquilo que seriam, se de fato fossem.

Vai nessa percepção menos uma crítica e lamento do que a constatação de um fato crucial que é, no meu entender, o ponto de partida para compreender a “nova direita” a partir da realidade concreta na qual surgiu, qual seja, num contexto de despertar cultural e político que leva primeiro a descobrir o que não se é nem se quer para só depois, se amadurecer, tornar-se quem deverá ser e sabendo pelo que lutar. O que a paralisação dos caminhoneiros revelou senão justamente que temos muito a reclamar sem saber direito o que pedir? Ou alguém aí da “nova direita” vai dizer que a greve foi boa quando resultou em tabelamento de preço e consequente aumento de tudo o mais para bancar uma única conta, a do diesel? Enfim, enquanto esse amadurecimento não acontece, se é que vai ocorrer, melhor lema não há para a “nova direita” do que o verso de uma música da Legião Urbana, típica banda para adolescentes: “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”.

Nesse contexto, o sujeito que desperta recebe da realidade um “bem-vindo ao hospício”, que também é o título feliz dado por Alexandre Costa ao seu segundo livro, editado pela Vide em 2016, e cuja leitura recomendo a quem quer antes se orientar na confusão em que vivemos do que correr para fazer parte do grupo que for. Volta e meia, aliás, recebo pedidos de recomendação do que dar para ler para quem “acordou” da anestesia do politicamente correto ou do esquerdismo ainda reinante. Quase sempre indico este livro. Porque Alexandre é didático, simples e “descomplicador”. Além disso, não fala desde o ponto de de vista da “direita” ou algo assim, mas desde o seu próprio ponto de vista de escritor espantado com a loucura reinante e tentando apenas expressá-la: “o objetivo deste livro é simplesmente reunir algumas destas observações, que estão muito mais próximos do espanto do que da indignação”.

Mas expressar algo é também dar-lhe uma forma que pode ser mais ou menos condizente com a realidade do que se expressa. No caso desse livro, o que vai ganhando forma à medida que avançamos na leitura é a do próprio tratamento da loucura que diagnostica. O apanhado de sintomas e exemplos de uma sociedade doente, que ele classifica em psicoses políticas, neuroses culturais e loucuras sociais, não é exaustivo, nem pretende ser, mas é suficientemente completo para que o leitor faça um diagnóstico de si e dos demais à sua volta e descubra que “nas doenças intelectuais que abordamos aqui elas nunca surgem sem que tenham sido influenciadas por uma espécie de ignorância histórica que costuma evoluir para o que podemos chamar de amnésia coletiva. Da ignorância e amnésia passamos à histeria e a praticamente todas as outras neuroses”.

Ignorância histórica se cura com conhecimento da história, é claro, mas quando a ideologização do senso comum chegou ao ponto em que chegou, o que seria até simples de se resolver, bastando interesse e força de vontade, tornou-se bastante complicado, sendo mais fácil e infelizmente comum o indivíduo confiar no conhecimento de alguns cuja autoridade não advém de outra fonte que não a do grupo ao qual agora passou a pertencer. Tipos assim acabam enlouquecendo também, é claro: “O meu tipo favorito de ‘doido destro’ (…) é aquele cara que acredita que o simples fato de ser aluno ou leitor esporádico de alguém reconhecidamente inteligente faz dele um sábio sem esforço, por osmose. Como se ele já soubesse tudo aquilo que seus professores sabem e não apenas o que ele aprendeu, assim que consegue repetir dez ou vinte afirmações verdadeiras abandona o seu passado e troca de ‘roupa intelectual’. Logo após algumas postagens bombásticas no Facebook passa a agir (e pensar!) como um conselheiro independente que a sociedade deve ouvir caso queira estabelecer a paz, a moral e a civilização, essas coisinhas simples”. Por isso o autor tem toda razão em avisar: “Não pense o leitor que a insanidade é um monopólio da esquerda”.

Ao fim do livro, Alexandre dá um relato pessoal que nos serve de exemplo de como curar a ignorância histórica: começando por compreender melhor a sua própria história de vida. Ao escrever o livro, Alexandre se deu conta que, depois de décadas trabalhando em vários empregos e ramos profissionais, muito desses anos em editoras, um único espanto perpassa sua vida e o move a escrever: “o espanto de perceber como grande parte das pessoas da minha geração, seja no campo profissional ou pessoal, se afasta da realidade em busca do conforto da adequação. Vi isso acontecer diante do meus olhos: o sujeito enlouquece só para não ofender os outros loucos”.

É por isso que costumo recomendar a leitura desse livro do Alexandre aos recém-despertados nesse hospício em que vivemos. Porque ele dá um exemplo não só de alguém que não enlouqueceu para se adequar ao que quer que seja, como também de quem assumiu sua vocação, no caso a de escritor, tendo consciência de sua capacidade e limitações. Para compreender melhor esse exemplo é preciso falar também do seu primeiro livro, Introdução à Nova Ordem Mundial, editado por conta própria em 2013 e com uma segunda edição revista e ampliada publicada pela Vide em 2015. Se Bem-vindo ao hospício foi fruto de um espanto, este foi resultado de uma curiosidade de tentar entender o evento histórico mais relevante do século 21 até o momento: o atentado de 11 de Setembro nos EUA.

Isso o levou a descobrir e começar a conhecer o que se convencionou chamar de Nova Ordem Mundial, que segundo o autor “é um conjunto de iniciativas que visam a implantação de um governo mundial estruturado em camadas, mas centralizado em uma entidade global – talvez a ONU, talvez uma que venha a ser criada”. O livro, porém, não é uma análise desse fenômeno, mas uma coletânea das informações colhidas em mais de dez anos de estudos cujo objetivo é o de “servir de porta de entrada para a compreensão da mudança civilizacional que atravessamos. (…) Por serem bastante objetivas, as descrições não se aprofundam o suficiente, mas até por uma questão de credibilidade diante do desconhecido, o intuito é que o leitor faça por si mesmo uma pesquisa mais completa”.

O livro é realmente introdutório e tem um mérito que poucos possuem: diz muito com muito pouco. A edição que possuo, a primeira, tem pouco mais de 100 páginas, mas a quantidade de informações é tanta que somente um bom escritor conseguiria compactá-las de uma forma facilmente compreensível e, mais importante, sugestiva, a incentivar o leitor a descompactar muitas delas e estudar por conta própria. E este é o leitor que Alexandre gostaria de ter: “Meu leitor ideal é aquele que busca a confirmação ou refutação antes de formar juízo sobre a informação recebida. Tenho observado que as pessoas que pensam assim tendem a compreender melhor, em menos tempo e com mais profundidade”. Ele próprio dá exemplo de ser alguém assim.

Tive o prazer de conhecer o autor quando veio a Curitiba lançar seu primeiro livro, em 2013, na saudosa Livraria Danúbio. Temia encontrar um louco, pois era preciso estar maluco para querer publicar um livro por conta própria tendo por assunto algo tão vasto e complicado assim. Como a livraria estava cheia, fiquei esperando do lado de fora lendo o livro e já no primeiro parágrafo meu medo começou a se dissolver ao ler: “Não possuo qualquer autoridade no assunto e não tenho credencial que avalize o trabalho por antecipação”. Quando o evento na livraria acabou e pude conhecê-lo pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi sua humildade. De louco ele não tinha nada, era apenas corajoso de dar a cara a tapa com seu livro e esperar que, se alguma autoridade possuía, ela lhe seria conferida pelo próprio trabalho, mais nada. Depois desses dois livros e com mais dois no forno para este 2018, com promessa de um futuro romance, posso afirmar que a autoridade de Alexandre Costa só tende a crescer. Azar de quem não o conhecer.

Artigo publicado originalmente na Gazeta do Povo em 05/06/2018.

Francisco Escorsim é advogado, professor e palestrante. Escreve na Gazeta do Povo.


Para comprar o livro Bem-vindo ao Hospício:





28 de set de 2018

Por que a imprensa odeia Bolsonaro? (Vídeo)


Qualquer um percebe a tentativa desesperada de destruir a imagem do candidato Jair Bolsonaro, mas alguns ainda não sabem que por trás do ódio descontrolado e cada vez mais descarado tem um motivo bem $imple$.



Lavagem cerebral em capítulos




A manipulação de notícias tem sido um dos métodos de controle e manutenção do poder desde o surgimento da imprensa. Junto com a omissão das informações inconvenientes ou desagradáveis, distorcer a divulgação dos fatos de acordo com objetivos pré-determinados sempre funcionou melhor do que inventar acontecimentos. É menos arriscado do que a invenção pura e simples porque evita desmentidos que podem ser catastróficos, e permite reajustes em caso de desmascaramento. Esta regra tem funcionado muito bem para o jornalismo que pretende moldar a percepção do público no curto prazo. O trabalho de invenção fica a cargo da outra ponta da estratégia e visa resultados de médio ou longo prazo.

Quando os objetivos não se resumem a influir em decisões imediatas e buscam interferir de maneira mais duradoura nas percepções da audiência, a narrativa ficcional oferece resultados mais interessantes para os manipuladores. A distorção das notícias pode impactar de modo mais visível e conseguir respostas praticamente instantâneas, mas a ficção tem a capacidade de influenciar de maneira muito mais profunda, embora suas consequências possam aparecer de forma mais lenta.

Conciliar estas duas formas de manipulação costuma oferecer resultados muito próximos da perfeição. A ficção prepara o substrato que vai reagir às notícias conforme os interesses não declarados.

No caso do Brasil podemos identificar esta prática sendo aplicada diariamente. Enquanto as novelas, séries e filmes fornecem a matéria-prima que vai povoar o imaginário da população, a falsificação de notícias tende a provocar as reações desejadas, no momento adequado aos objetivos planejados. 

Este método de manipulação que utiliza a ficção e a “realidade” de maneira conjunta para moldar comportamentos e transformar a sociedade pode ser usado por razões políticas, mas funcionam ainda melhor quando dirigidos para questões de ordem moral ou social.

Ainda na década de 1960 tem início um processo de inserção de pautas contrárias aos valores comuns à sociedade. Mais tarde, com o fim do governo militar essa técnica foi aprimorada. Dezenas de novelas começam tratando o tema de forma paralela e expondo seu potencial polêmico, depois seguem avançando lentamente a sua importância dentro da trama e provocando debates públicos, colocando no centro da discussão assuntos que antes não faziam parte dos interesses da população. Em seguida o noticiário pinça exemplos que confirmam a “tendência” e extrapolam a sua relevância, tornando o tema cotidiano e inquestionável. Com o imaginário preenchido a aceitação da notícia encontra terreno fértil e diminui a resistência. Daí em diante a pauta se mantém, ganha notoriedade e o medo do isolamento atrai até mesmo aqueles que não concordam com ela, um fenômeno explicado no livro A Espiral do Silêncio, de Elizabeth Noelle- Neumann.

Em 1992 a TV Globo lançou uma minissérie chamada Anos Rebeldes. Consistia em uma visão romanceada do regime militar, que ali era chamado de “Anos de Chumbo”. Muito bem produzida e recheada de mulheres bonitas e jovens idealistas e corajosos, a peça de ficção rapidamente conquistou grande audiência. Além dos telespectadores cativos que a emissora sempre teve no horário, a dinâmica aventureira e a rebeldia embelezada capturaram também a atenção dos jovens, até então avessos a este tipo de programa.

A série durou dois meses e paulatinamente foi aprofundando a trama até chegar ao maniqueísmo pretendido: jovens que só tinham amor no coração lutando contra velhos militares malvados. Com o assunto instalado na mente das pessoas e, portanto, na pauta das conversas, vieram as edições do Globo Repórter e especiais do Fantástico confirmando cada detalhe do roteiro. Primeiro validaram os cenários e o figurino, fortalecendo a credibilidade do programa, e depois a história inteira. Pronto, estava montada toda uma narrativa que ainda permanece na mente da maioria da população brasileira, mesmo para aqueles que não assistiram e nem mesmo ouviram falar da produção.

O sucesso desta empreitada influenciou diversas outras iniciativas e foi evoluindo com o passar do tempo, culminando em Malhação, uma máquina de moldar mentalidades jovens que já existe há 26 anos e faria inveja a Pavlov, Goebbels ou Mengele. Malhação é o mais eficiente experimento de lavagem cerebral já produzido no Brasil, e como seu foco é a juventude, inexperiente, rebelde e imediatista por natureza, seus efeitos podem ser observados sem muita dificuldade: tudo aquilo que é inserido na novelinha apresenta resultados praticamente automáticos, bastando apenas um reforço do jornalismo militante. Todas as tendências e modas “sugeridas” de forma ostensiva ou sutil tornam-se padrão entre boa parte dos jovens que nem percebem que estão sendo conduzidos por aqueles que julga odiar. Curiosamente, os mesmos estudantes teleguiados que, obedecendo a partidos políticos vão à porta da emissora gritar “o povo não é bobo, abaixo a rede Globo” repetem as gírias, roupas e penteados lançados em Malhação.

Estes exemplos mostram como a estratégia de conciliar a ficção ideológica com jornalismo tendencioso tem funcionado com eficiência notável, especialmente entre os jovens. Mostram também que para sanear a mente das próximas gerações será preciso muito mais do que melhorar a propagação das notícias, mas principalmente construir um novo imaginário, um trabalho infinitamente mais complexo.


Alexandre Costa é autor dos livros Introdução à Nova Ordem Mundial, Bem-vindo ao Hospício e O Brasil e a Nova Ordem Mundial.

Texto publicado originalmente na revista Estudos Nacionais  (2018)

26 de set de 2018

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Criminalidade, Audiências de Custódia e o mundo mágico dos ingênuos

Audiência de Custódia de Adélio Bispo, que esfaqueou Bolsonaro

Para quem ainda acredita que o problema da criminalidade desenfreada pode ser resolvida com abraços na lagoa ou soltando pombinhas, seguem os vídeos do Canal Brasileirinhos, que demonstram o caminho insensato que estamos percorrendo rumo ao caos absoluto.

Brasileirinhos 5 (Parte 1: nego é mau)



Brasileirinhos 5 (Parte 2: mortos fardados)


Brasileirinhos 5 (Parte 3: Vai todo mundo morrer)




Postagem recente que fiz no Facebook para divulgar os artigos de uma leitora:

Quem me acompanha sabe que considero a criminalidade o pior problema brasileiro. Não consigo pensar em algo mais grave do que 60.000 homicídios e 70.000 estupros por ano, por isso custo a entender a ingenuidade das pessoas que acreditam que esse problema será resolvido repetindo os remédios que estão matando o paciente. Na minha visão, esta questão deveria estar no centro da discussão eleitoral, mas sabemos que apenas um candidato (#EleSim) parece querer enfrentar esse problema.
As abomináveis audiências de custódia servem como exemplos dessas distorções que tomaram conta do debate sobre segurança pública. Além de incentivar a reincidência e revoltar as vítimas, desmoralizam as instituições e desmotivam os agentes que ainda se esforçam para combater e punir os criminosos.
A Promotora de Justiça Cláudia R Morais Piovezan está abordando o assunto com inteligência, conhecimento de causa e texto refinado. É uma honra ter uma leitora tão brilhante e qualificada.

Trecho do primeiro de três excelentes artigos: (links logo abaixo):
"De acordo com a justificativa inicial, o objetivo seria verificar a legalidade da prisão e se o preso sofrera violência policial, o que sempre fora realizado por meio da comunicação do flagrante para o juiz e para o promotor de justiça. No entanto, a justificativa inicial guardava um segredo, pois o que aparentava ser um inocente doce era, na verdade, um bombom envenenado, pois, em 09 de abril de 2015, foram assinados três acordos de cooperação entre CNJ, Ministério da Justiça e, vejam só, Instituto de Defesa do Direito de Defesa* que tinham por objetivo incentivar a difusão do projeto Audiências de Custódia em todo o País, o uso de medidas alternativas à prisão e a monitoração eletrônica buscando combater a “cultura do encarceramento” que alegavam ter se instalado no Brasil. Ou seja, os acordos firmados pelo CNJ logo após o início do projeto da audiência de custódia já demonstraram a quem e a que servia o malfadado ato judicial."
Obs *: O Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) é uma ONG idealizada por Márcio Thomaz Bastos. Precisa dizer mais alguma coisa?

Artigos da Promotora Cláudia R. Morais Piovezan: