Novo vídeo no canal do escritor Alexandre Costa, autor das obras "Fazendo Livros", "Introdução à Nova Ordem Mundial", "Bem-vindo ao Hospício", "O Novato" e "O Brasil e a Nova Ordem Mundial".
Não existe nada mais gratificante para um escritor do que
encontrar uma leitora atenta como Erika Boquimpani, que demonstra interesse pelo seu trabalho e
respeita sua opinião a ponto de pedir uma análise de outro livro, no caso, um
clássico. Como a maioria do que publiquei foi com o intuito de disseminar
informações a respeito de projetos e iniciativas que de alguma forma contribuem
para a formação de um governo totalitário, a análise do livro "A Revolução dos
Bichos" se encaixa perfeitamente como complemento do meu trabalho, aprofundando
a explicação por meio da imaginação e usando um dos livros mais importantes do
século XX.
Rejeitado por vários editores, inclusive por TS Eliot, o
livro de George Orwell foi finalmente lançado em 17 de agosto de 1945 e hoje
ocupa lugar de destaque entre as obras mais importantes do seu tempo, para
surpresa – e desgosto – daqueles que não aceitaram publicar a fábula por razões
políticas ou por falta de tato.
O romance, que se confirma satírico também pelo uso de
personagens antropomórficos, critica duramente os sistemas de governo que
procuram controlar toda sociedade de acordo com um planejamento que
supostamente vai corrigir todos os erros humanos e todos os problemas causados
pelo convívio entre pessoas. Dado o contexto histórico em que está inserido, o
livro é ao mesmo tempo um ataque à União Soviética de Joseph Stalin e um
deboche aos pilares que compõem as principais teses do socialismo, comunismo,
nazismo, fascismo e outras formas de regimes autoritários ou totalitários que se
arrogam o direito de planejar toda sociedade.
A crítica ao Stalinismo, que deve ter motivado o autor a
escrever a fábula política mais precisa do século, está representada na
liderança tirânica e no poder progressivamente crescente, que evolui desde a tomada
do poder e culmina na consolidação de uma autoridade praticamente absoluta, que
não por acaso recebe o nome de Napoleão. Orwell, que era um socialista
decepcionado com a degradação econômica, social e moral da União Soviética,
principalmente após a ascensão de Stalin, parece deixar uma pergunta ao leitor:
“Foi pra isso que fizemos a revolução?”
Outra questão que pode remeter ao socialismo soviético é a
briga entre os líderes do levante logo após a expulsão dos humanos. Essa
ruptura não aconteceu apenas entre Stalin e Trotsky, que começa antes mesmo da
morte de Lênin, mas costuma se repetir sempre, muito provavelmente devido à
megalomania muito comum entre revolucionários. A união, a solidariedade e a
camaradagem só existem no discurso pré-revolucionário. Deflagrada a revolução,
a guerra pelo poder se sobrepõe a qualquer outro sentimento ou princípio. Desde
a Revolução Francesa é assim.
O livro de George Orwell se tonou um clássico da análise
política porque expõe o fracasso de toda idéia de controle da sociedade com uma
perspicácia extraordinária. O escritor conseguiu captar a essência do movimento
revolucionário e deu a ela uma forma bem humorada e aparentemente simples.
Engana-se porém, quem subestima esta simplicidade. Como dizia Clarice
Lispector, “só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. E foi
isso que Orwell fez, unindo precisão e sutileza como apenas os gênios são
capazes de fazer.
A Revolução dos Bichos, ou simplesmente Animal Farm, como a
nomeou o seu autor, trata de uma óbvia comparação com os regimes totalitários
que se instalavam na Europa naquele momento, especialmente na União Soviética.
Na fábula moderna que Orwell criou, um porco ancião (Major, que pode ser visto
como os intelectuais coletivistas que antecedem os regimes) inicia uma crítica
à opressão humana e uma defesa da igualdade entre todos animais. Com a morte do
porco velho, dois jovens (Bola de Neve e Napoleão) lideram uma revolta animal
contra os proprietários da fazenda, sob o discurso da liberdade e prometendo também
os outros dois lemas da Revolução Francesa, igualdade e fraternidade. O mundo
ideal prometido pelos líderes, no entanto, começa a fazer água logo após a
conquista da fazenda e a expulsão dos fazendeiros.
Em pouco tempo a liderança dos porcos começa a mostrar sua
incompetência para gerir os negócios e a exploração dos demais animais aumenta
progressivamente, enquanto crescem os privilégios daqueles que se diziam os
protetores da igualdade, exatamente como aconteceu e acontece em absolutamente
todos os regimes coletivistas. O crescimento do poder e da boa vida dos porcos
passa a ser tão evidente que é preciso modificar algumas regras ditadas durante
o processo revolucionário:
·Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é
inimigo.
·Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou
tenha asas, é amigo.
·Nenhum animal usará roupas.
·Nenhum animal dormirá em cama.
·Nenhum animal beberá álcool.
·Nenhum animal matará outro animal.
·Todos os animais são iguais.
Uma a uma as leis são mudadas para manter o discurso e
perpetuar o poder dos porcos sobre os demais, até que a última delas recebe uma
“emenda” que completa a frase com “mas alguns animais são mais iguais do que
outros”. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Napoleão, o porco que assume o poder ditatorial desde expulsão
de Bola de Neve (Trotsky), e pode ser entendido como uma representação de Joseph Stalin, passa a obrigar os animais a marcharem, entoar hinos e palavras de
ordem como forma de limitar o pensamento e doutrinar a mente dos súditos, parodiando as paradas tão adoradas pelos
tiranos.
Diante do fracasso da administração e do aumento da opressão
sobre os animais, Napoleão passa a usar Bola de Neve como bode expiatório. Tudo
que acontece de ruim na fazenda é por obra de planos de sabotagem dirigidos
pelo porco que foi banido. O gênio de Orwell conseguiu reproduzir com exatidão
a transferência de responsabilidade tão comum aos ditadores socialistas e
comunistas: Fidel Castro não faz exatamente a mesma coisa ao culpar os EUA pela miséria
cubana?
Outra representação brilhante existente em A Revolução dos
Bichos é cooptação dos jovens para coloca-los contra a sociedade e até mesmo
contra sua própria família. Quando a
cadela tem seus filhotes, Napoleão os toma e leva para cria-los longe da mãe. Os
cães somem durante boa parte da estória e só reaparecem quando surge uma ameaça
de rebelião entre os animais, e então os cachorros se colocam em defesa dos porcos, até mesmo
contra a mãe-cadela.
São inúmeras as referências e a cada leitura o livro pode
mostrar ainda mais relações com a realidade política, desde o porco Garganta,
que simboliza a retórica embelezada da propaganda do regime, até o nome da “ideologia”,
Animismo, uma clara referência do comunismo, sem esquecer de Moisés, o corvo
que anuncia “A Montanha” como uma espécie de Céu para os animais e era
detestado pelos porcos da mesma forma que as religiões são odiadas pelos
comunistas.
Para a minha área de estudos, que pretende entender e evitar
o totalitarismo global, poucos livros foram tão importantes na educação do
imaginário como este. Sabendo que é pela imaginação que criamos os princípios
que vão preparar a aceitação ou rejeição a uma idéia, a importância de A Revolução
dos Bichos só pode, talvez, ser comparada ao trabalho posterior de George
Orwell, 1984, e ao livro de seu ex-professor, Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo.
A fábula de Orwell contém todos os elementos que podem ser observados
no contexto dos planos de Nova Ordem Mundial: Tirania, centralização de poder, promessas
de paz, igualdade e liberdade, construção do paraíso na terra, desejo de
controle, privilégios das classes dirigentes, mentiras travestidas de ciência e
diminuição do direito individual em troca de um suposto benefício futuro – que nunca
se realiza.
Nascido Eric Arthur Blair, em 25 de junho de 1903, na cidade
de Motihari quando o subcontinente indiano estava sob domínio colonial do Império
Britânico, Orwell pertencia a uma família de classe média, com antepassados
nobres e bem posicionados no poder e na Igreja Anglicana. Mais tarde ganhou uma
bolsa parcial em uma boa escola católica, a São Cipriano, onde conheceu Cyril
Connolly, editor da Revista Horizon, que publicou os primeiros ensaios do jovem
Eric. Suas boas notas o levaram a ser bolsista em instituições de muito
respeito à época, como Wellington College e Eton College, onde teve aulas de
francês com Aldous Huxley, que mais tarde elogiaria o ex-aluno em uma carta,
por ocasião do lançamento de 1984, seu livro mais famoso.
A atmosfera dos estudos, o contato com grandes pensadores e
o panorama político fervilhante da Europa certamente influenciaram as mudanças
de rumo que começaram a acontecer em sua vida, e o interesse por novos assuntos
fez diminuir a dedicação aos estudos acadêmicos. Por influência do seu avô, fez
parte da Polícia Imperial Indiana em Birmânia e viajou por muitos lugares da
Ásia, até contrair dengue. De volta à Inglaterra decidiu que seria escritor e
lança o romance "Dias na Birmânia", em 1934. Logo após este período sua vida
material sofre um revés atrás do outro e ele acaba como lavador de pratos, mas
sem deixar de escrever. Alguns romances desta época não foram lançados e se
perderam, mas no jornalismo seu desempenho era cada vez mais notado. Neste
período de vacas magras se aproximou do marxismo e juntou-se a um partido
operário (POUM) que lutava contra Francisco Franco, na Guerra Civil Espanhola.
Provavelmente sua decepção com a milícia marxista influenciou decisivamente nos
seus últimos e derradeiros trabalhos: Animal Farm (1945) e Nineteen Eighty-Four
(1949), pois além de ter danificado a sua voz ao ser baleado, viu de perto as
hipocrisias, as falsidades e a sede pelo poder daqueles que diziam lutar contra
os poderosos. Morreu de tuberculose aos 46 anos de idade, e este rápido e
incompleto resumo da sua biografia serve para mostrar que quase sempre a compreensão
da obra de um escritor aumenta consideravelmente quando se observa o contexto e
as circunstâncias de sua vida.
Não tenho dúvidas de que A Revolução dos Bichos é um dos mais
importantes livros já escritos. Sua simplicidade, seu texto objetivo e seus insights
possuem uma profundidade que muitas vezes não é percebida devido ao seu
formato. Desconfio que se este livro fosse indicado em todas as escolas desde a
infância e adolescência, nenhum adulto seria cooptado pelos ideias coletivistas
e revolucionários.Tenho esperança que
um dia isso ainda aconteça.
Não deixem de ler o livro, além de ser uma obra de arte da
literatura, é fácil, rápido e absolutamente acessível a qualquer um.
A revolução dos Bichos também foi adaptada para o cinema diversas
vezes, e algumas versões são excelentes, mas ainda acho que a leitura do livro
tem um alcance imaginativo (e cognitivo) impossível de ser captado em um filme
ou desenho animado. De qualquer forma, aqui estão algumas versões:
Animal Farm (1999): filme feito para a TV, escrito por Alan Janes e dirigido por John Stephenson.
***
Animal Farm (1954): animação dirigida por John Halas e Joy Batchelor
***
Nota: A Netflix pretende fazer uma nova adaptação do clássico. Ainda sem data definida (até onde eu sei), a equipe já conta com Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra) e Andy Serkis, o eterno Sméagol de " O Senhor dos Anéis".
Quando decidi escrever neste espaço sobre a chamada “nova direita”, tinha apenas um objetivo: ler e resenhar os livros publicados por autores que a integram, gostem ou não dessa inclusão que é apenas constatação de um fato. Não demorou para perceber que não daria para falar dessas obras sem contextualizá-las melhor nas circunstâncias em que nasceram, o que me levou a rascunhar as origens da “nova direita”, destacando fatos e pessoas de importância fundamental para o que veio depois. Agora que cheguei à fase em que os livros começaram a ser publicados, compreendi por que, lá no início, achava que deveria começar as resenhas pelos livros do Alexandre Costa. Não, não é o fundador da Cacau Show. Quem é, então?
Entendo se você se fez essa pergunta. Alexandre Costa não faz questão de participar das turmas da “nova direita”, algo essencial se quisesse se tornar mais (re)conhecido dentro dela. Porque essa “nova direita” mal entrou na adolescência, época em que a falta de personalidade é mascarada por uma identidade grupal visceral. Por isso qualquer um que dela faça parte será inevitavelmente enquadrado como sendo desse ou daquele grupo, ainda que não faça parte de nenhum. O que mais temos na “nova direita”, aliás, são pessoas que se identificam muito mais por negativas e exclusões do que outra coisa. A começar por aqueles que são de direita por e para não serem de esquerda, seja lá o que a direita for. Daí o fenômeno bem comum de termos conservadores ou liberais que assim se identificam com uma dessas posições mais para não serem confundidos com a outra. Dê uma mirada em muitos perfis de neodireitistas nas redes sociais e verá a quantidade de orgulhosos conservadores e liberais que se orgulham mais do que não são do que por aquilo que seriam, se de fato fossem.
Vai nessa percepção menos uma crítica e lamento do que a constatação de um fato crucial que é, no meu entender, o ponto de partida para compreender a “nova direita” a partir da realidade concreta na qual surgiu, qual seja, num contexto de despertar cultural e político que leva primeiro a descobrir o que não se é nem se quer para só depois, se amadurecer, tornar-se quem deverá ser e sabendo pelo que lutar. O que a paralisação dos caminhoneiros revelou senão justamente que temos muito a reclamar sem saber direito o que pedir? Ou alguém aí da “nova direita” vai dizer que a greve foi boa quando resultou em tabelamento de preço e consequente aumento de tudo o mais para bancar uma única conta, a do diesel? Enfim, enquanto esse amadurecimento não acontece, se é que vai ocorrer, melhor lema não há para a “nova direita” do que o verso de uma música da Legião Urbana, típica banda para adolescentes: “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”.
Nesse contexto, o sujeito que desperta recebe da realidade um “bem-vindo ao hospício”, que também é o título feliz dado por Alexandre Costa ao seu segundo livro, editado pela Vide em 2016, e cuja leitura recomendo a quem quer antes se orientar na confusão em que vivemos do que correr para fazer parte do grupo que for. Volta e meia, aliás, recebo pedidos de recomendação do que dar para ler para quem “acordou” da anestesia do politicamente correto ou do esquerdismo ainda reinante. Quase sempre indico este livro. Porque Alexandre é didático, simples e “descomplicador”. Além disso, não fala desde o ponto de de vista da “direita” ou algo assim, mas desde o seu próprio ponto de vista de escritor espantado com a loucura reinante e tentando apenas expressá-la: “o objetivo deste livro é simplesmente reunir algumas destas observações, que estão muito mais próximos do espanto do que da indignação”.
Mas expressar algo é também dar-lhe uma forma que pode ser mais ou menos condizente com a realidade do que se expressa. No caso desse livro, o que vai ganhando forma à medida que avançamos na leitura é a do próprio tratamento da loucura que diagnostica. O apanhado de sintomas e exemplos de uma sociedade doente, que ele classifica em psicoses políticas, neuroses culturais e loucuras sociais, não é exaustivo, nem pretende ser, mas é suficientemente completo para que o leitor faça um diagnóstico de si e dos demais à sua volta e descubra que “nas doenças intelectuais que abordamos aqui elas nunca surgem sem que tenham sido influenciadas por uma espécie de ignorância histórica que costuma evoluir para o que podemos chamar de amnésia coletiva. Da ignorância e amnésia passamos à histeria e a praticamente todas as outras neuroses”.
Ignorância histórica se cura com conhecimento da história, é claro, mas quando a ideologização do senso comum chegou ao ponto em que chegou, o que seria até simples de se resolver, bastando interesse e força de vontade, tornou-se bastante complicado, sendo mais fácil e infelizmente comum o indivíduo confiar no conhecimento de alguns cuja autoridade não advém de outra fonte que não a do grupo ao qual agora passou a pertencer. Tipos assim acabam enlouquecendo também, é claro: “O meu tipo favorito de ‘doido destro’ (…) é aquele cara que acredita que o simples fato de ser aluno ou leitor esporádico de alguém reconhecidamente inteligente faz dele um sábio sem esforço, por osmose. Como se ele já soubesse tudo aquilo que seus professores sabem e não apenas o que ele aprendeu, assim que consegue repetir dez ou vinte afirmações verdadeiras abandona o seu passado e troca de ‘roupa intelectual’. Logo após algumas postagens bombásticas no Facebook passa a agir (e pensar!) como um conselheiro independente que a sociedade deve ouvir caso queira estabelecer a paz, a moral e a civilização, essas coisinhas simples”. Por isso o autor tem toda razão em avisar: “Não pense o leitor que a insanidade é um monopólio da esquerda”.
Ao fim do livro, Alexandre dá um relato pessoal que nos serve de exemplo de como curar a ignorância histórica: começando por compreender melhor a sua própria história de vida. Ao escrever o livro, Alexandre se deu conta que, depois de décadas trabalhando em vários empregos e ramos profissionais, muito desses anos em editoras, um único espanto perpassa sua vida e o move a escrever: “o espanto de perceber como grande parte das pessoas da minha geração, seja no campo profissional ou pessoal, se afasta da realidade em busca do conforto da adequação. Vi isso acontecer diante do meus olhos: o sujeito enlouquece só para não ofender os outros loucos”.
É por isso que costumo recomendar a leitura desse livro do Alexandre aos recém-despertados nesse hospício em que vivemos. Porque ele dá um exemplo não só de alguém que não enlouqueceu para se adequar ao que quer que seja, como também de quem assumiu sua vocação, no caso a de escritor, tendo consciência de sua capacidade e limitações. Para compreender melhor esse exemplo é preciso falar também do seu primeiro livro, Introdução à Nova Ordem Mundial, editado por conta própria em 2013 e com uma segunda edição revista e ampliada publicada pela Vide em 2015. Se Bem-vindo ao hospício foi fruto de um espanto, este foi resultado de uma curiosidade de tentar entender o evento histórico mais relevante do século 21 até o momento: o atentado de 11 de Setembro nos EUA.
Isso o levou a descobrir e começar a conhecer o que se convencionou chamar de Nova Ordem Mundial, que segundo o autor “é um conjunto de iniciativas que visam a implantação de um governo mundial estruturado em camadas, mas centralizado em uma entidade global – talvez a ONU, talvez uma que venha a ser criada”. O livro, porém, não é uma análise desse fenômeno, mas uma coletânea das informações colhidas em mais de dez anos de estudos cujo objetivo é o de “servir de porta de entrada para a compreensão da mudança civilizacional que atravessamos. (…) Por serem bastante objetivas, as descrições não se aprofundam o suficiente, mas até por uma questão de credibilidade diante do desconhecido, o intuito é que o leitor faça por si mesmo uma pesquisa mais completa”.
O livro é realmente introdutório e tem um mérito que poucos possuem: diz muito com muito pouco. A edição que possuo, a primeira, tem pouco mais de 100 páginas, mas a quantidade de informações é tanta que somente um bom escritor conseguiria compactá-las de uma forma facilmente compreensível e, mais importante, sugestiva, a incentivar o leitor a descompactar muitas delas e estudar por conta própria. E este é o leitor que Alexandre gostaria de ter: “Meu leitor ideal é aquele que busca a confirmação ou refutação antes de formar juízo sobre a informação recebida. Tenho observado que as pessoas que pensam assim tendem a compreender melhor, em menos tempo e com mais profundidade”. Ele próprio dá exemplo de ser alguém assim.
Tive o prazer de conhecer o autor quando veio a Curitiba lançar seu primeiro livro, em 2013, na saudosa Livraria Danúbio. Temia encontrar um louco, pois era preciso estar maluco para querer publicar um livro por conta própria tendo por assunto algo tão vasto e complicado assim. Como a livraria estava cheia, fiquei esperando do lado de fora lendo o livro e já no primeiro parágrafo meu medo começou a se dissolver ao ler: “Não possuo qualquer autoridade no assunto e não tenho credencial que avalize o trabalho por antecipação”. Quando o evento na livraria acabou e pude conhecê-lo pessoalmente, o que mais me chamou a atenção foi sua humildade. De louco ele não tinha nada, era apenas corajoso de dar a cara a tapa com seu livro e esperar que, se alguma autoridade possuía, ela lhe seria conferida pelo próprio trabalho, mais nada. Depois desses dois livros e com mais dois no forno para este 2018, com promessa de um futuro romance, posso afirmar que a autoridade de Alexandre Costa só tende a crescer. Azar de quem não o conhecer.
Artigo publicado originalmente na Gazeta do Povoem 05/06/2018.
Francisco Escorsim é advogado, professor e palestrante. Escreve na Gazeta do Povo.
Qualquer um percebe a tentativa desesperada de destruir a imagem do candidato Jair Bolsonaro, mas alguns ainda não sabem que por trás do ódio descontrolado e cada vez mais descarado tem um motivo bem $imple$.
A manipulação de notícias tem sido um dos métodos de
controle e manutenção do poder desde o surgimento da imprensa. Junto com a
omissão das informações inconvenientes ou desagradáveis, distorcer a divulgação
dos fatos de acordo com objetivos pré-determinados sempre funcionou melhor do
que inventar acontecimentos. É menos arriscado do que a invenção pura e simples
porque evita desmentidos que podem ser catastróficos, e permite reajustes em
caso de desmascaramento. Esta regra tem funcionado muito bem para o jornalismo
que pretende moldar a percepção do público no curto prazo. O trabalho de
invenção fica a cargo da outra ponta da estratégia e visa resultados de médio
ou longo prazo.
Quando os objetivos não se resumem a influir em
decisões imediatas e buscam interferir de maneira mais duradoura nas percepções
da audiência, a narrativa ficcional oferece resultados mais interessantes para
os manipuladores. A distorção das notícias pode impactar de modo mais visível e
conseguir respostas praticamente instantâneas, mas a ficção tem a capacidade de
influenciar de maneira muito mais profunda, embora suas consequências possam
aparecer de forma mais lenta.
Conciliar estas duas formas de manipulação costuma
oferecer resultados muito próximos da perfeição. A ficção prepara o substrato
que vai reagir às notícias conforme os interesses não declarados.
No caso do Brasil podemos identificar esta prática
sendo aplicada diariamente. Enquanto as novelas, séries e filmes fornecem a
matéria-prima que vai povoar o imaginário da população, a falsificação de
notícias tende a provocar as reações desejadas, no momento adequado aos
objetivos planejados. Este método de manipulação que utiliza a ficção e a
“realidade” de maneira conjunta para moldar comportamentos e transformar a
sociedade pode ser usado por razões políticas, mas funcionam ainda melhor quando
dirigidos para questões de ordem moral ou social.
Ainda na década de 1960 tem início um processo de
inserção de pautas contrárias aos valores comuns à sociedade. Mais tarde, com o
fim do governo militar essa técnica foi aprimorada. Dezenas de novelas começam
tratando o tema de forma paralela e expondo seu potencial polêmico, depois
seguem avançando lentamente a sua importância dentro da trama e provocando
debates públicos, colocando no centro da discussão assuntos que antes não
faziam parte dos interesses da população. Em seguida o noticiário pinça
exemplos que confirmam a “tendência” e extrapolam a sua relevância, tornando o
tema cotidiano e inquestionável. Com o imaginário preenchido a aceitação da
notícia encontra terreno fértil e diminui a resistência. Daí em diante a pauta
se mantém, ganha notoriedade e o medo do isolamento atrai até mesmo aqueles que
não concordam com ela, um fenômeno explicado no livro A Espiral do Silêncio, de
Elizabeth Noelle- Neumann.
Em 1992 a TV Globo lançou uma minissérie chamada
Anos Rebeldes. Consistia em uma visão romanceada do regime militar, que ali era
chamado de “Anos de Chumbo”. Muito bem produzida e recheada de mulheres bonitas
e jovens idealistas e corajosos, a peça de ficção rapidamente conquistou grande
audiência. Além dos telespectadores cativos que a emissora sempre teve no
horário, a dinâmica aventureira e a rebeldia embelezada capturaram também a
atenção dos jovens, até então avessos a este tipo de programa.
A série durou dois meses e paulatinamente foi
aprofundando a trama até chegar ao maniqueísmo pretendido: jovens que só tinham
amor no coração lutando contra velhos militares malvados. Com o assunto
instalado na mente das pessoas e, portanto, na pauta das conversas, vieram as
edições do Globo Repórter e especiais do Fantástico confirmando cada detalhe do
roteiro. Primeiro validaram os cenários e o figurino, fortalecendo a
credibilidade do programa, e depois a história inteira. Pronto, estava montada
toda uma narrativa que ainda permanece na mente da maioria da população
brasileira, mesmo para aqueles que não assistiram e nem mesmo ouviram falar da
produção.
O sucesso desta empreitada influenciou diversas
outras iniciativas e foi evoluindo com o passar do tempo, culminando em
Malhação, uma máquina de moldar mentalidades jovens que já existe há 26 anos e
faria inveja a Pavlov, Goebbels ou Mengele. Malhação é o mais eficiente experimento
de lavagem cerebral já produzido no Brasil, e como seu foco é a juventude,
inexperiente, rebelde e imediatista por natureza, seus efeitos podem ser
observados sem muita dificuldade: tudo aquilo que é inserido na novelinha
apresenta resultados praticamente automáticos, bastando apenas um reforço do
jornalismo militante. Todas as tendências e modas “sugeridas” de forma
ostensiva ou sutil tornam-se padrão entre boa parte dos jovens que nem percebem
que estão sendo conduzidos por aqueles que julga odiar. Curiosamente, os mesmos
estudantes teleguiados que, obedecendo a partidos políticos vão à porta da
emissora gritar “o povo não é bobo, abaixo a rede Globo” repetem as gírias,
roupas e penteados lançados em Malhação.
Estes exemplos mostram como a estratégia de
conciliar a ficção ideológica com jornalismo tendencioso tem funcionado com
eficiência notável, especialmente entre os jovens. Mostram também que para
sanear a mente das próximas gerações será preciso muito mais do que melhorar a
propagação das notícias, mas principalmente construir um novo imaginário, um
trabalho infinitamente mais complexo.
Alexandre Costa é autor dos livros Introdução à Nova Ordem Mundial, Bem-vindo ao Hospício e O Brasil e a Nova Ordem Mundial.
Texto publicado originalmente na revista Estudos Nacionais (2018)