A Revolução dos Bichos – Minha leitura




Não existe nada mais gratificante para um escritor do que encontrar uma leitora atenta como Erika Boquimpani, que demonstra interesse pelo seu trabalho e respeita sua opinião a ponto de pedir uma análise de outro livro, no caso, um clássico. Como a maioria do que publiquei foi com o intuito de disseminar informações a respeito de projetos e iniciativas que de alguma forma contribuem para a formação de um governo totalitário, a análise do livro "A Revolução dos Bichos" se encaixa perfeitamente como complemento do meu trabalho, aprofundando a explicação por meio da imaginação e usando um dos livros mais importantes do século XX.

Rejeitado por vários editores, inclusive por TS Eliot, o livro de George Orwell foi finalmente lançado em 17 de agosto de 1945 e hoje ocupa lugar de destaque entre as obras mais importantes do seu tempo, para surpresa – e desgosto – daqueles que não aceitaram publicar a fábula por razões políticas ou por falta de tato.

O romance, que se confirma satírico também pelo uso de personagens antropomórficos, critica duramente os sistemas de governo que procuram controlar toda sociedade de acordo com um planejamento que supostamente vai corrigir todos os erros humanos e todos os problemas causados pelo convívio entre pessoas. Dado o contexto histórico em que está inserido, o livro é ao mesmo tempo um ataque à União Soviética de Joseph Stalin e um deboche aos pilares que compõem as principais teses do socialismo, comunismo, nazismo, fascismo e outras formas de regimes autoritários ou totalitários que se arrogam o direito de planejar toda sociedade.

A crítica ao Stalinismo, que deve ter motivado o autor a escrever a fábula política mais precisa do século, está representada na liderança tirânica e no poder progressivamente crescente, que evolui desde a tomada do poder e culmina na consolidação de uma autoridade praticamente absoluta, que não por acaso recebe o nome de Napoleão. Orwell, que era um socialista decepcionado com a degradação econômica, social e moral da União Soviética, principalmente após a ascensão de Stalin, parece deixar uma pergunta ao leitor: “Foi pra isso que fizemos a revolução?”

Outra questão que pode remeter ao socialismo soviético é a briga entre os líderes do levante logo após a expulsão dos humanos. Essa ruptura não aconteceu apenas entre Stalin e Trotsky, que começa antes mesmo da morte de Lênin, mas costuma se repetir sempre, muito provavelmente devido à megalomania muito comum entre revolucionários. A união, a solidariedade e a camaradagem só existem no discurso pré-revolucionário. Deflagrada a revolução, a guerra pelo poder se sobrepõe a qualquer outro sentimento ou princípio. Desde a Revolução Francesa é assim.

O livro de George Orwell se tonou um clássico da análise política porque expõe o fracasso de toda idéia de controle da sociedade com uma perspicácia extraordinária. O escritor conseguiu captar a essência do movimento revolucionário e deu a ela uma forma bem humorada e aparentemente simples. Engana-se porém, quem subestima esta simplicidade. Como dizia Clarice Lispector, “só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. E foi isso que Orwell fez, unindo precisão e sutileza como apenas os gênios são capazes de fazer.

A Revolução dos Bichos, ou simplesmente Animal Farm, como a nomeou o seu autor, trata de uma óbvia comparação com os regimes totalitários que se instalavam na Europa naquele momento, especialmente na União Soviética. Na fábula moderna que Orwell criou, um porco ancião (Major, que pode ser visto como os intelectuais coletivistas que antecedem os regimes) inicia uma crítica à opressão humana e uma defesa da igualdade entre todos animais. Com a morte do porco velho, dois jovens (Bola de Neve e Napoleão) lideram uma revolta animal contra os proprietários da fazenda, sob o discurso da liberdade e prometendo também os outros dois lemas da Revolução Francesa, igualdade e fraternidade. O mundo ideal prometido pelos líderes, no entanto, começa a fazer água logo após a conquista da fazenda e a expulsão dos fazendeiros.

Em pouco tempo a liderança dos porcos começa a mostrar sua incompetência para gerir os negócios e a exploração dos demais animais aumenta progressivamente, enquanto crescem os privilégios daqueles que se diziam os protetores da igualdade, exatamente como aconteceu e acontece em absolutamente todos os regimes coletivistas. O crescimento do poder e da boa vida dos porcos passa a ser tão evidente que é preciso modificar algumas regras ditadas durante o processo revolucionário:
  • ·         Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
  • ·         Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo.
  • ·         Nenhum animal usará roupas.
  • ·         Nenhum animal dormirá em cama.
  • ·         Nenhum animal beberá álcool.
  • ·         Nenhum animal matará outro animal.
  • ·         Todos os animais são iguais.


Uma a uma as leis são mudadas para manter o discurso e perpetuar o poder dos porcos sobre os demais, até que a última delas recebe uma “emenda” que completa a frase com “mas alguns animais são mais iguais do que outros”. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Napoleão, o porco que assume o poder ditatorial desde expulsão de Bola de Neve (Trotsky), e pode ser entendido como uma representação de Joseph Stalin, passa a obrigar os animais a marcharem, entoar hinos e palavras de ordem como forma de limitar o pensamento e doutrinar a mente dos súditos,  parodiando as paradas tão adoradas pelos tiranos.

Diante do fracasso da administração e do aumento da opressão sobre os animais, Napoleão passa a usar Bola de Neve como bode expiatório. Tudo que acontece de ruim na fazenda é por obra de planos de sabotagem dirigidos pelo porco que foi banido. O gênio de Orwell conseguiu reproduzir com exatidão a transferência de responsabilidade tão comum aos ditadores socialistas e comunistas: Fidel Castro não faz exatamente a mesma coisa ao culpar os EUA pela miséria cubana?

Outra representação brilhante existente em A Revolução dos Bichos é cooptação dos jovens para coloca-los contra a sociedade e até mesmo contra sua própria família. Quando a cadela tem seus filhotes, Napoleão os toma e leva para cria-los longe da mãe. Os cães somem durante boa parte da estória e só reaparecem quando surge uma ameaça de rebelião entre os animais, e então os cachorros se colocam em defesa dos porcos, até mesmo contra a mãe-cadela.

São inúmeras as referências e a cada leitura o livro pode mostrar ainda mais relações com a realidade política, desde o porco Garganta, que simboliza a retórica embelezada da propaganda do regime, até o nome da “ideologia”, Animismo, uma clara referência do comunismo, sem esquecer de Moisés, o corvo que anuncia “A Montanha” como uma espécie de Céu para os animais e era detestado pelos porcos da mesma forma que as religiões são odiadas pelos comunistas.

Para a minha área de estudos, que pretende entender e evitar o totalitarismo global, poucos livros foram tão importantes na educação do imaginário como este. Sabendo que é pela imaginação que criamos os princípios que vão preparar a aceitação ou rejeição a uma idéia, a importância de A Revolução dos Bichos só pode, talvez, ser comparada ao trabalho posterior de George Orwell, 1984, e ao livro de seu ex-professor, Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo.

A fábula de Orwell contém todos os elementos que podem ser observados no contexto dos planos de Nova Ordem Mundial: Tirania, centralização de poder, promessas de paz, igualdade e liberdade, construção do paraíso na terra, desejo de controle, privilégios das classes dirigentes, mentiras travestidas de ciência e diminuição do direito individual em troca de um suposto benefício futuro – que nunca se realiza.

Nascido Eric Arthur Blair, em 25 de junho de 1903, na cidade de Motihari quando o subcontinente indiano estava sob domínio colonial do Império Britânico, Orwell pertencia a uma família de classe média, com antepassados nobres e bem posicionados no poder e na Igreja Anglicana. Mais tarde ganhou uma bolsa parcial em uma boa escola católica, a São Cipriano, onde conheceu Cyril Connolly, editor da Revista Horizon, que publicou os primeiros ensaios do jovem Eric. Suas boas notas o levaram a ser bolsista em instituições de muito respeito à época, como Wellington College e Eton College, onde teve aulas de francês com Aldous Huxley, que mais tarde elogiaria o ex-aluno em uma carta, por ocasião do lançamento de 1984, seu livro mais famoso.

A atmosfera dos estudos, o contato com grandes pensadores e o panorama político fervilhante da Europa certamente influenciaram as mudanças de rumo que começaram a acontecer em sua vida, e o interesse por novos assuntos fez diminuir a dedicação aos estudos acadêmicos. Por influência do seu avô, fez parte da Polícia Imperial Indiana em Birmânia e viajou por muitos lugares da Ásia, até contrair dengue. De volta à Inglaterra decidiu que seria escritor e lança o romance "Dias na Birmânia", em 1934. Logo após este período sua vida material sofre um revés atrás do outro e ele acaba como lavador de pratos, mas sem deixar de escrever. Alguns romances desta época não foram lançados e se perderam, mas no jornalismo seu desempenho era cada vez mais notado. Neste período de vacas magras se aproximou do marxismo e juntou-se a um partido operário (POUM) que lutava contra Francisco Franco, na Guerra Civil Espanhola. Provavelmente sua decepção com a milícia marxista influenciou decisivamente nos seus últimos e derradeiros trabalhos: Animal Farm (1945) e Nineteen Eighty-Four (1949), pois além de ter danificado a sua voz ao ser baleado, viu de perto as hipocrisias, as falsidades e a sede pelo poder daqueles que diziam lutar contra os poderosos. Morreu de tuberculose aos 46 anos de idade, e este rápido e incompleto resumo da sua biografia serve para mostrar que quase sempre a compreensão da obra de um escritor aumenta consideravelmente quando se observa o contexto e as circunstâncias de sua vida.

Não tenho dúvidas de que A Revolução dos Bichos é um dos mais importantes livros já escritos. Sua simplicidade, seu texto objetivo e seus insights possuem uma profundidade que muitas vezes não é percebida devido ao seu formato. Desconfio que se este livro fosse indicado em todas as escolas desde a infância e adolescência, nenhum adulto seria cooptado pelos ideias coletivistas e revolucionários. Tenho esperança que um dia isso ainda aconteça.

Não deixem de ler o livro, além de ser uma obra de arte da literatura, é fácil, rápido e absolutamente acessível a qualquer um.



A revolução dos Bichos também foi adaptada para o cinema diversas vezes, e algumas versões são excelentes, mas ainda acho que a leitura do livro tem um alcance imaginativo (e cognitivo) impossível de ser captado em um filme ou desenho animado. De qualquer forma, aqui estão algumas versões:


Animal Farm (1999): filme feito para a TV, escrito por Alan Janes e dirigido por  John Stephenson.

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Animal Farm (1954): animação dirigida por John Halas e Joy Batchelor

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Nota: A Netflix pretende fazer uma nova adaptação do clássico. Ainda sem data definida (até onde eu sei), a equipe já conta com Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra) e Andy Serkis, o eterno Sméagol de " O Senhor dos Anéis". 

Esperando ansioso...




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