Ódio cego



Fulano acorda, pula da cama, veste um jeans e calça um tênis Nike. Por ter exagerado no Jack Daniel’s, agora precisa de um Tylenol e uma Coca Cola. Escova os dentes com Colgate e sai sem comer nada. Tira o Ford da garagem e enfia um CD do Metallica pra acordar de verdade. No caminho toma um café na Starbucks e aproveita para comprar a revista Rolling Stone. Acende um Marlboro com o Zippo cromado e segue para o escritório.

No trabalho redige as propostas no Word, faz planilhas no Excel, prepara uma apresentação para o chefe no Power Point e fuça no Facebook escondido. Como não entende nada de Linux, usa Windows a contragosto, mas adora as novas ferramentas do Google Chrome.

No almoço decide comer no Burger King para ganhar tempo. A fila do Mc Donald’s está muito grande e ele ainda precisa comprar um carregador na loja da Apple.

Em casa, de ressaca curada, abre uma Budweiser e liga a TV. Quando passa pela CNN descobre que houve um atentado em Boston e deixa escapar:

-- Os estadunidenses merecem. Odeio esse imperialismo yankee, que nada de bom trouxe ao mundo...

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O que os romanos fizeram por nós?


A Vida de Brian - Monty Phyton. 



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A imprensa não me representa


A democracia pressupõe alguns pontos essenciais. Além do voto universal, da estabilidade das instituições e das garantias constitucionais, o direito à livre e verdadeira informação também faz parte da trama estrutural que permite a existência de uma nação democrática.

O papel da imprensa em uma sociedade democrática reside não apenas na difusão de informações e análise de fatos e conjunturas, mas também na escolha das informações, da sua relevância e, principalmente, da honestidade destas abordagens.

Pegando carona nesta campanha movida contra o deputado Marco Feliciano, onde um grupo de “ilustres” e “celebridades” tenta desqualificar todo aquele que discorda de seus ideais políticos e culturais, aproveito para analisar a representatividade da própria imprensa, envolvida até a medula nesta campanha.

Representatividade
A grande imprensa brasileira é composta por algumas dezenas de jornais, revistas, portais e emissoras de rádio e TV. Muitos destes órgãos pertencem aos mesmos grupos, o que reduz ainda mais este universo.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) informa que em 2010 existiam cerca de 90.000 jornalistas no Brasil. Considerando que boa parte destes profissionais não trabalha na área, outra parte exerce suas funções na imprensa alternativa e outros tantos se ocupam nas assessorias de imprensa, agências de propaganda e imprensa segmentada, o número de pessoas envolvidas na seleção, edição e divulgação de notícias na chamada grande imprensa deve ser apenas uma fração deste número já demasiado pequeno.

A audiência é outro dado importante: com exceção da TV, os principais órgãos de imprensa não atingem 10% dos 193.946.886 habitantes estimados pelo IBGE. Nem mesmo quando somados.

Se esta representatividade já parece frágil apenas pelos números de emissores e receptores, o que dizer da sintonia, ou falta dela, entre os anseios da população e da imprensa?

Questões centrais da vida social como pena de morte, armamento, aborto, “casamento” gay e maioridade penal, por exemplo, evidenciam a oposição entre a vontade do povo e os desejos dos falantes. Esta diferença, no entanto, parece não existir para a imprensa, pois os ilustres emitem suas opiniões como se estas fossem majoritárias e estivessem amparadas pela maioria da população, o que quase sempre não é verdade. O plebiscito do desarmamento que o diga.

Esta disparidade entre a opinião da imprensa e a vontade da população, por si só, deveria levantar dúvidas sobre esta autoproclamada representatividade.

Homogeneidade
Certa vez um diretor da Reuters ou da BBC, não estou bem certo, afirmou que uma redação recebe cerca de 1500 notícias diariamente. Como o espaço disponível em uma edição impressa ou eletrônica é limitado, apenas 50 ou 60 delas ganham o destaque devido.

Diante da heterogeneidade das opiniões humanas, como é possível que neste mar de notícias exatamente as mesmas sejam destacadas pelas mais variadas empresas? Como não acredito que esta unanimidade seja apenas uma coincidência, no meu entender ela comprova interesses políticos muito bem determinados e ideologicamente alinhados.

Parcialidade
É óbvio que nenhuma abordagem da imprensa é isenta de parcialidade. Toda análise é feita por seres humanos e, portanto está sujeita a opiniões, desejos e crenças, que são elementos constitutivos inerentes à natureza humana.

Acontece que a imprensa, cada vez mais, esquece sua função de informar e sobrepõe a esta as suas ideologias, misturando fatos com análises e transformando informação em ação política. Este blog é uma manifestação da minha visão sobre os fatos, mas ninguém pode me acusar de ser ambíguo quanto aos objetivos deste espaço e menos ainda de formatar os fatos para que possam se encaixar nas minhas análises, coisa que a imprensa vem fazendo com uma freqüência cada vez maior. Fatos são fatos. Análises, crenças e opiniões são outros quinhentos. Mas para a grande imprensa é tudo a mesma coisa.

Quem ainda acredita em “pesquisas de opinião”?
A começar pelo método, que no meu entender não capta a verdadeiras intenções da população, tendo em vista a limitação e o pequeno alcance das entrevistas, passando pela escolha sempre arbitrária dos entrevistados, não acredito na eficácia das pesquisas de opinião.

Para aumentar a descrença é importante frisar o histórico recheado de erros gigantescos e o visível alinhamento ideológico, político e partidário de grande parte dos responsáveis pelas pesquisas.

O PIG não existe!
Tudo o eu escrevi acima demonstra minha desconfiança sobre a capacidade e a honestidade da imprensa. Existe um grupo de jornalistas, blogueiros e opinadores que comunga desta minha desconfiança, mas pelos motivos opostos. No meu entender, estão “enganados” e sabem disso, tanto que muitos deles pregam a censura disfarçada por outros nomes.

Um grupo de sites e blogs, que eu chamo de B.I.F.E, ou Blogs "Independentes" Financiados pelo Estado, criou a sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista) para se referir a parte da imprensa, segundo eles empenhada em fazer oposição partidária aos governos que eles chamam de “progressistas”.

A inexistência desse sentimento oposicionista na grande imprensa é comprovada pela pauta, pela presença maciça de anúncios de governo e das estatais, pela total convergência de opiniões entre jornalistas e governantes, e também pelo fato de que as poucas denúncias se restringem a atos de corrupção e, mesmo assim, muito aliviadas e superficiais.

Não é possível encontrar na grande imprensa brasileira, com raríssimas exceções, ataques de conteúdo e profundidade aos projetos políticos e culturais defendidos pelos governantes.

Duas sugestões e uma conclusão
Sei que não tenho a fórmula mágica para resolver os problemas que estão destruindo um dos pilares da democracia, mas mesmo assim gostaria de sugerir dois temas para alimentar o debate sobre o papel da imprensa na liberdade de informação.

Minha primeira sugestão é acabar com toda e qualquer forma de publicidade governamental. Sem o dinheiro de prefeituras, governos estaduais e federais e também das empresas estatais, a imprensa será um pouco mais livre de fazer política e restará mais tempo para informar e mais credibilidade na informação. Sei que os membros do B.I.F.E. não vão gostar muito desta idéia, nem os governantes que utilizam a propaganda como moeda para a compra de consciências. Também sei que esta atitude não fará milagres sem uma conscientização popular, mas acredito que só esta ação já seria um grande avanço no sentido de moralizar e libertar a comunicação.

Outra sugestão, um tanto paralela, mas que vai colaborar com a anterior é insistir na participação popular. Sou favorável a plebiscitos, referendos e consultas para definir toda e qualquer proposta de fundo moral que venha a afetar os costumes enraizados na sociedade. Será que o povo concorda com todo dinheiro gasto em propaganda governamental?

Ao contrário de muitos “democratas” que cochicham pelos cantos que “a população não está apta a decidir”, defendo o direito de a maioria decidir temas relacionados aos costumes, mesmo quando desconfio que sairei perdendo.

Concluindo, o zeitgeist é sombrio! E boa parte da culpa por este estado de coisas reside na pobreza intelectual e ética da nossa imprensa que, pelos motivos relacionados acima, não me representa e não representa a maioria da população. Talvez eu escreva mais sobre isso em uma próxima postagem.

Dica de leitura: A espiral do silêncio - Elisabeth Noelle-Neumann.

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Feliciano e o pensamento de manada

Récua se preparando para mais um protesto

Em toda a minha vida nunca presenciei uma imbecilidade coletiva tão evidente como esta que está ocorrendo no Brasil atualmente. Com o tempo, no entanto, percebi que a situação era ainda mais grave do que parece à primeira vista.

Toda esta histeria contra a permanência do deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos tem um aspecto mais profundo e mais importante do que o circo armado na imprensa e nas redes sociais.

Como ando com pouco tempo, decidi escrever esta rápida postagem, que apesar de curta e até superficial, resume o que penso a respeito. Se for preciso e quando der tempo, farei outra mais completa.

Boi de piranha
Existe uma expressão popular para o ato de sacrificar o mais fraco de forma a permitir a sobrevivência dos mais fortes. Os criadores de gado, para atravessar um rio infestado de piranhas, matam algum animal velho ou doente e o colocam em um ponto do rio, de forma atrair todos os predadores. Enquanto as piranhas devoram o pobre animal, o resto do rebanho atravessa em segurança em outra parte do rio.

Enquanto a podridão corre solta nos gabinetes e autarquias, e as novas mentiras do governo vão aparecendo a cada dia; enquanto a seca do nordeste mata pessoas e milhares de animais; enquanto condenados em última instância assumem mandatos e cargos de confiança; enquanto a corrupção e a incompetência estão evidentes em todos os gabinetes, não parece curioso que o governo, que detém maioria no Congresso, permita que um deputado contrário à sua vontade de “modernizar os valores” da sociedade consiga a presidência da Comissão de Direitos Humanos?

E não é que eles conseguiram desviar a atenção de toda uma nação? Pense nisso...

E a Constituição?
A Constituição Brasileira garante a todo cidadão o direito de se expressar, mesmo quando está errado, mesmo quando fala bobagens. Garante também que ninguém é culpado até que se prove o contrário. Não existe democracia sem estas duas garantias.

O teste efetivo para se reconhecer um democrata é quando ele se depara com opiniões contrárias à sua. Quem grita pela democracia, mas ao primeiro sinal de discordância quer eliminar o contrário é um hipócrita, nada mais que isso.

O fato
Antes de qualquer outra coisa, vamos analisar os fatos. O pastor e deputado federal Marco Feliciano disse o que pensa. Errado ou certo, não vem ao caso agora, ele tem este direito. Quem diz isso é o bom senso e a Constituição.

A imprensa, com seu preconceito exacerbado contra religiosos de todas as vertentes, mas principalmente contra os Cristãos, eleva a dimensões estratosféricas as falas ou mensagens do pastor, como se aquilo fosse algum crime, o que efetivamente não é. Vou repetir porque sei que o nível de compreensão anda muito baixo: ele expressou uma opinião, de acordo com os direitos que nossas leis garantem não apenas a ele, mas a todos os brasileiros, inclusive aos idiotas que estão esperneando por aí.

A reação
Logo após surgiu uma reação desproporcional, raivosa e alucinada, contra a eleição e a permanência do deputado na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. A imprensa deixou de lado sua fingida imparcialidade e partiu para o ataque, muitas vezes pessoal e até familiar. Não vi essa indignação diante da roubalheira do mensalão, também não vi nenhuma gritaria por causa dos resultados ridículos de nosso sistema educacional, e nem mesmo diante dos 50.000 homicídios anuais. Que indignação é essa? Que tipo de sensibilidade essa gente tem?

Outra coisa: racismo é crime, e cabe ao acusador provar o que diz. Caso contrário, comete calúnia, ou falsa imputação de crime, que no Brasil é crime também (artigo 138 do Código Penal). Ninguém se atentou a isso. A imprensa, que utiliza o "suposto isso", "suposto aquilo" mesmo diante de um réu confesso, não teve a mínimo respeito e colou em Feliciano o carimbo: "racista e homofóbico".

Gravidade (ou “o buraco é mais embaixo”)
Toda esta histeria coletiva parece espontânea, mas não é. Existe um método e uma estratégia por trás desta massa de manobra que atua como um batalhão de choque da imbecilidade. É claro que muitos que estão protestando contra o deputado acreditam estar agindo em prol dos direitos humanos, do bem e da Justiça. Sinto desapontá-los, mas estão sendo manipulados por interesses muito menos nobres e pouco difundidos.

Na verdade, o pensamento de manada (ou récua, melhor dizendo) que está se evidenciando no ataque ao deputado Feliciano obedece a um método de tomada de poder que não passa pelas vias normais, democráticas e constitucionais.

Como sabem que a maioria das pessoas é silenciosamente contrária às suas idéias e que teriam suas causas derrotadas em uma confrontação direta -- um plebiscito, por exemplo --, preferem o caminho mais fácil, mais sujo e nem um pouco democrático.

O método é o seguinte: junte um bando de ativistas desocupados – ou ideólogos ocupadíssimos--, meia dúzia de “artistas” e mais uma penca de jornalistas “comprometidos com a causa”. Pela gritaria que fazem, arregimentam mais um bando de desinformados (Lênin chamava de idiota útil) que idolatram estes pseudo-artistas e então fica parecendo que sua causa é universal, sacrossanta e intocável.

O truque tem dado certo porque a sociedade brasileira foi emburrecida em décadas de revolução cultural, pela ditadura do politicamente correto e pela idolatria da televisão e do show business. Quando estas pessoas desinformadas se vêem diante de tamanha gritaria na imprensa, pensam que fazem parte de uma desgraçada minoria insensível. Na verdade, a maioria da população precisa trabalhar e pagar os impostos que vão financiar toda essa bandalheira, por isso não tem tempo de participar deste circo que eles chamam de “protesto”. Então sua opinião é reprimida a ponto de parecer inexistente.

A gravidade desta situação vai muito além da Comissão de Direitos Humanos. A tentativa de pressionar, no grito, a renúncia de um deputado até então inocente, eleito por mais de 200.000 pessoas, que chegou onde está seguindo todos os ritos democráticos e constitucionais, trata-se de um ataque à democracia, à Constituição e aos direitos individuais de todos os brasileiros.

Esta nova forma de fazer política passa longe do voto e do embate democrático, está crescendo a cada dia no Brasil, e começa a se transformar num perigo gigantesco. Por isso a permanência de Marco Feliciano, hoje, representa a própria democracia. Espero que ele resista às pressões e não esqueça que a maioria do Brasil deve estar com ele.

Concluindo
Não conheço o pastor Marco Feliciano, não sou evangélico, não concordo com todas as suas opiniões e confesso que não sabia bem quem ele era até que esta onda histérica tomou conta da imprensa. Nada disso, no entanto, muda o que eu escrevi acima.

PS: Não deixem de ler este artigo


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